Saúde Legal

Fuligem da queima da cana causa descontentamento e gera abaixo-assinado

Danos não remetem apenas ao meio ambiente, bem como também à saúde humana.
por Jeferson Machado
02/11/2015 17:55h

ma dos canaviais. Segundo os mesmos, é possível produzir a cana-de-açúcar sem a queima da mesma, com a incorporação de restos culturais no campo, oferecendo muito mais vantagens em comparação à prática tradicional que vemos em nosso estado.

No abaixo-assinado (clique e assine também), são apontados os danos ao meio ambiente, bem como o desconforto das casas cheias da fuligem, mesmo após as faxinas e limpezas diárias. O intuito é pressionar o Ministério Público através desse documento.

Contudo, o problema vai ainda mais além. Em março de 2013, apontei nessa mesma coluna, do Portal Itnet, os perigos e danos à saúde causados pela fuligem proveniente da queima da cana-de-açúcar. Vamos relembrar a matéria:

 

Bagaço preto da queima da cana-de-açúcar é causa de problemas de saúde

31/03/2013

Não se trata apenas de uma questão ambiental. A fuligem, ou popularmente chamado como "bagacinho preto", provindo da queima dos canaviais é tema de discussão em todo o país. As donas de casa reclamam da sujeira, mas não é só a sujeira que essa prática traz prejuízo para a sociedade.

A queima da cana-de-açúcar é realizada para facilitar o corte manual e a colheita da mesma. Porém, esse método acaba por liberar mais de setenta produtos químicos inclusos nessa fumaça. Moradores e trabalhadores dessas regiões acabam atingidos por essa poluição, e a inalação dessas partículas, especialmente as finas e ultrafinas, penetram no sistema respiratório provocando reações alérgicas e inflamatórias. Quanto maior a inalação, maior a tendência a agravar-se o quadro, pois a fuligem atinge a corrente sanguínea e pode causar complicações em diversos órgãos.

Em 2009, um estudo em regiões de queima da cana-de-açúcar apontou um alto índice de pessoas com asma, hipertensão, câimbras, infarto, dores na coluna, enfisema e estresse, e quase todos ligados ao problema. Trabalhadores da região de Araraquara, interior de São Paulo, chegaram a desenvolver câncer de pulmão, por conta da inalação da fumaça. E tem mais um dado curioso, o índice de câncer de pênis é 85% maior nos cortadores de cana, já que a glande do órgão é sensível e acaba sofrendo os efeitos da fuligem.

A queima da biomassa é a maior fonte de emissão de material particulado e de gases tóxicos do planeta. Regiões de queima de canaviais apresentam um ar com carbono e poluição muito maior que o ar poluído da capital São Paulo. Essas partículas tóxicas são de tamanhos aproximados em 0,1 micrômetros. Para se ter uma ideia, o fio de cabelo tem 70 micrômetros, ou seja, o "bagacinho preto" vem acompanhado de inimigos poderosos, invisíveis ao olho nu, e que podem nos causar muitos problemas.

Mais de 70 produtos químicos provenientes da queima podem causar câncer de pulmão.

Voltemos a 2015

Em junho de 2014, um cortador de cana da usina São Martinho recebeu um adicional de insalubridade por causa da fuligem, após julgamento pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST). A alegação da defesa da usina era de que nem o corte e nem a queimada da cana estão previstas na regra do Ministério do Trabalho que define as atividades insalubres.

Porém, os laudos periciais provaram que há hidrocarbonetos prejudiciais à saúde na fuligem da cana. "Os cortadores de cana ficam com braços, tórax, pescoço e rosto impregnados com a fuligem de carvão, mesmo servindo-se da camisa de algodão fornecida pela empresa. Ou seja, o trabalhador era exposto a hidrocarboneto por contato na pele, e não só por inalação", escreveu o ministro Renato de Lacerda Paiva, do TST, ao negar o recurso da São Martinho.

Isso confirma o que foi apontado na matéria há dois anos, sobre a pesquisa com os trabalhadores da região de Araraquara. E consequentemente, é possível concluir sobre a poluição do ar, danos ao meio ambiente, bem como possíveis riscos à saúde dos moradores próximos às regiões de queima. Assim, é preciso a conscientização da sociedade em geral, dos trabalhadores, autoridades, até os proprietários das usinas de cana-de-açúcar, enfim, a sociedade, para que se adote o cultivo da cana sem a queima.

Para saber mais:

Acesse o abaixo-assinado: Basta de tanta fuligem em nossas casas!

Acesse o artigo: IMPACTOS CAUSADOS PELA FULIGEM DA CANA-DE-AÇÚCAR

Jeferson Machado Santos.CRF-SE: 658.

Farmacêutico pela Universidade Federal de Sergipe - UFS.Habilitação em Bioquímica Clínica pela Universidade Federal de Sergipe - UFS.Especialista em Administração de Empresas pela FIJ-RJ.Especialista em Farmacologia e Interações Medicamentosas pela Uninter-IBPEX.

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