Esporte

Ribeiropolense Matheus 99 deixa Dnipro para jogar na China

Sergipano deixa o clube ucraniano após 05 anos.
por Redação do Portal Itnet
27/06/2016 15:21h

Por Aparecido Santana, redação Itnet.

O ribeiropolense Matheus Leite Nascimento, o Matheus 99, rescindiu contrato com Dnipro da Ucrânia e vai defender o Shijiazhuang Ever Bright, da China. No novo clube, o jogador, de 33 anos, vai reencontrar Rúben Micael, com quem atuou no SC Braga, assim como o venezuelano Mario Rondón.

"Na nossa cabeça pensamos que tudo demora, mas não é no nosso tempo e sim quando Deus quer. Obrigado,Deus no comando. Novo time. Novos sonhos. Novas conquistas. Deus é fiel", postou o jogador em uma rede social.

A história do jogador

O pontapé inicial para uma carreira de sucesso foi iniciada no Estádio Etelvino Mendonça na cidade de Itabaiana (SE), em meados da primeira década do século XXI. No Tricolor da Serra, Matheus jogou nas categorias de base e, posteriormente, conseguiu alcançar o time profissional. O atleta foi peça fundamental na conquista do Campeonato Sergipano em 2005. Na ocasião, a Imprensa Esportiva o escolheu melhor atacante e craque do Campeonato. Ali começava a ser escrita a história do atleta.

Os olheiros e uma ligação mudou o futuro do jogador: a saída para a Europa

Em 2005, o Campeonato Sergipano era disputado no formato pontos corridos, ou seja, venceria o certame o clube que chegasse ao fim com o maior número de pontos conquistados. Dessa forma, na última rodada apenas dois times tinha chances matemáticas de levantar a taça de campeão: o Itabaiana e o Sergipe. O Tremendão da Serra precisava apenas de uma simples vitória, mas sapecou 3 a 0 no Lagartense, conquistando pela primeira vez um título estadual no Estádio Presidente Médici (os demais foram conquistados no Batistão e no antigo Etelvino Mendonça). O time do então técnico Freitas Nascimento jogou com Paulo Renato, Deivid Natal, Dé, Ricardo e Carlinhos (Léo); Raulino, Kemps, Jonathan (Robinho) e Nem; Berg (Valério) e Matheus.

Na partida decisiva, empresários e técnicos de uma equipe de Portugal acompanharam o confronto para observarem outros três atletas, mas ao final do jogo gostaram mesmo foi da atuação do atacante Matheus, que vestia à época a camisa 11. Com a rapidez que o mundo do futebol exige, o atleta foi logo convidado a jogar fora do pais, convite de imediato aceito.

O ídolo no frio do leste europeu lembra-se de como tudo começou. O então garoto de 22 anos estava curtindo um dia de lazer após a conquista e o telefone toca. "Eu estava na AABB de Ribeirópolis tomando um banho de piscina, quando o telefone tocou e o empresário me disse ‘Matheus tem coragem de vir para Portugal'? Eu disse tenho, tenho coragem sim. Eu sequer tinha passaporte, documentos, mas imediatamente meu irmão e eu providenciamos e conseguimos e viajamos para Portugal", relembra Matheus.

Enfrentando a fome

"Para a gente ter as coisas precisa sofrer, e o que vêm fácil, vai fácil", filosofa Matheus sobre os seus primeiros passos na Europa. Para ele, as dificuldades começaram por ter que jogar na segunda divisão do futebol português e recebendo um salário aquém das despesas, além de morar longe da família. Mas o contrato com Futebol Clube do Marco era apenas o começo. "Às vezes minha mãe ligava e dizia ‘meu filho venha para casa, que você está passando fome aqui não vai passar'. Mas desistir nunca passou pela minha cabeça. Claro que na angústia, as vezes acordar pela manhã e não ter o que comer, chegar o almoço e não ter o que comer. Nessa equipe só treinava no sábado, porque na semana não tinha condições porque realmente mim sentia cansado, com fome. Treinava no sábado e jogava no domingo", desabafa.

O irmão, a quem classifica como companheiro de jornada, Daniel Leite, foi um dos que o acompanhou desde o início da carreira do craque. "Na época que ele foi transferido para Portugal fui morar com ele, passei um ano e seis meses, e lá acompanhei um bom pedaço do sofrimento dele. Jogava bem, mais por ser novato e jovem, saindo de uma cidade pequena sofreu muito, até o ponto que ele foi emprestado e depois do primeiro empréstimo foi que deu um salto na carreira", relata Daniel.

Sergipano faz história no Braga

Matheus Leite no Braga

As dificuldades de Matheus foram sendo superadas com bola na rede. Cada jogo crescia e passava a ser sondado por outras equipes. Em janeiro de 2006, foi comprado pelo Sporting Clube de Braga, fazendo quatro aparições na Primeira divisão portuguesa em sua primeira temporada. De janeiro a agosto de 2007, foi emprestado para o Sport Clube Beira-Mar e de agosto a dezembro para o Vitória de Setúbal. Por lá ele foi Campeão da Taça da Liga de Portugal, sendo escolhido como melhor marcador (artilheiro) e como ele ainda tinha contrato o Braga, o clube o trouxe de volta em 2008. O retorno foi o momento em que o atacante se firmou no elenco como titular absoluto da posição disputando competições importantes como a Liga Europa e Champions League (Liga dos Campeões).

Um dos momentos de consagração do sergipano aconteceu no confronto contra o Arsenal (Ingraterra) pela Champions no ano de 2010, em que o atacante balançou as redes em duas ocasiões e deu a vitória ao time português, que durante sua história, sequer havia disputado a competição e naquele ano conquistou o vice-campeonato. Alguns jornais e sites destacaram a manchete "com show de Matheus, Braga vence Arsenal".

Após a vitória surpreendente do time lusitano contra o gigante inglês, o telefone do jogador não parava de tocar e ele foi negociado para o Dnipro da Ucrânia por 1 milhão de euros. "Era duas da manhã e os empresários me ligando. Lembro que estava deitado e o telefone tocava reiteradas vezes, mas não atendia. Foi aí que um empresário deixou uma mensagem e logo sem seguida retornei", afirma Matheus. E continua relatando emocionado o fato: "O empresário me convidou para conversar amanhã às 7 horas da manhã. Aceitei e indiquei um café (lanchonete) próximo a minha casa. Assim que chego foi logo informando que tinha uma equipe da Ucrânia interessada em mim e que o treinador era o conhecido Juan de Ramos, que havia treinado o poderoso Real Madri, o Tottenham, Sevilla. Questionei sobre qual a proposta e ele disse que era de 3 anos e meio, e já respondi se podia assinar de imediato. Porque havia entre 50 ou 100 empresários com propostas mas sem finalizar a negociação. Foi aí que peguei o papel assinei e fui jogar na Ucrânia", conclui.

Ucrânia: Novo time, nova história

Matheus Leite

O FC Dnipro Dnipropetrovsk é um time de futebol profissional da Ucrânia, da cidade de Dnipropetrovsk. Lá, jogam vários brasileiros, inclusive recentemente o lateral-esquerdo Anderson da Silveira Ribeiro, conhecido como Anderson Pico, foi emprestado do Flamengo para vestir o azul e branco do time europeu.

Defendendo as cores do time ucraniano, Matheus fez boas atuações seja fazendo gols ou dando assistências para seus companheiros. Já balançou as redes mais de 50 vezes pelo Dnipro. Na temporada 2013/2014 foi artilheiro do time com 13 gols, vindo a se tornar ídolo no país.

A adaptação ao mudar de clube foi algo difícil, e isto ganha contornos mais difíceis quando se mora em um lugar de cultura diferente e de língua desconhecida. Matheus conta que na apresentação ao Dnipro a temperatura era de -26º. "Eu não sabia, levei poucas roupas e disse meu Deus eu não vou aguentar ficar aqui. O que é que vim fazer aqui", lembra.

A Camisa 99

Matheus Leite

A ideia da camisa 99, veio do goleiro Vítor Manuel Martins Baía, um dos 9 jogadores que conquistaram os três principais títulos Europeus de clubes: Liga dos Campeões, Taça UEFA e Taça das Taças, o que lhe garantiu o número nas costas desde que voltou ao FC Porto. Certa feita, assistindo a um jogo do clube, Matheus teve a ideia da camisa.

O sergipano usava a camisa 11 no Itabaiana, mas ao ser transferido para Portugal teve que escolher outro número, pois o clube tinha o capitão que usava a mesma camisa, e entre o novato e o consagrado jogador, a preferência ficou com quem tinha mais história no time. Mas ao chegar em casa após um jogo, Matheus liga a TV e assiste a um dos últimos jogos de Vítor Baía com a camisa 99 do Porto, e não deu outra adotou o número até hoje. O atacante conta que teve até um pequeno problema ao assinar contrato com o Dnipro, pois um goleiro usava a 99, mas houve um acordo para que o arqueiro usasse a 98, e ele continuasse ostentando o número predileto.

Família e negócios

Na Ucrânia o filho de Afia Leite e José Ailton conheceu a ucraniana Yulia. Eles se apaixonaram e se casaram em 2012 e deste enlace nasceu a bela Emili. O casal teve como principal dificuldade a comunicação, mas aos poucos ela foi aprendendo o português e ele tenta ao máximo "arranhar" o russo, idioma falado na Ucrânia.

O ribeiropolense relata que um dos grandes sofrimentos foi a distância dos pais e irmãos em Sergipe. Às vezes eles viajam à Ucrânia e a mesma coisa faz o atleta no período de férias que retorna a sua cidade natal para matar a saudade. No estado, o irmão Daniel Nascimento cuida dos negócios, que recentemente abriu uma academia de musculação na cidade de Nossa Senhora Aparecida (SE) e também mantém uma escolinha para revelação de jogadores em Ribeirópolis.

Afia comenta que foi um momento terrível em que o filho deixou o país para arriscar a vida na Europa. "Por mim ele não tinha ido, mas ele é determinado e foi, e para a gente aqui foi uma experiência um pouco ruim, nós nunca nos separamos e ele foi para lá, e passou por muitas dificuldades, muitas vezes me ligava meia noite para conversar, era aquele sufoco, mas estava sempre orando por ele, pedindo a Deus por ele, e sabia que Deus ia levar meu filho a ser conhecido mundialmente".

Assista entrevista feita em 2015 com o jogador

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