Opinião

Itabaiana, de 'princesa da serra' à rainha da violência. Queremos paz!

94 mortes marcam 296 dias de 2016, superando índices de 2015. E agora, quem poderá nos defender?
por Iane Gois
01/11/2016 09:44h
Atualizado em 01/11/2016 10:13h

Por Iane Gois DRT 1458/SE

Bela em suas riquezas naturais, forte em seu comércio, pujante em representatividade intelecta, celeiro cultural, Capital Nacional do Caminhão, Itabaiana (SE) já não se destaca pelas características que fazem dela o maior interior do estado de Sergipe.

Nas manchetes de jornais, a nódoa de sangue que mancha o território serrano ganha espaço e faz da "princesa da serra" a "rainha em criminalidade", realidade que intriga, revolta, mas incontestável ante os números assombrosos de crimes que acontecem e, sem respostas, se fazem apenas estatística.

O ano não terminou, mas já superamos 2015. São 94 mortes com emprego de violência em apenas 296 dias, incontáveis assaltos, arrombamentos que nos tornam reféns da criminalidade e prisioneiros de um sistema falido, de um modelo de segurança pública arcaíco no qual as vítimas são transformadas em réus e, sentenciadas, são privadas dos direitos, da liberdade. Há tempos levaram a nossa ordem e pouco se faz.

O crime migra constantemente e a polícia, que se desdobra para retomar o controle, já não consegue fazer muito, já não pode fazer. Não há suporte, não se tem estrutura, a organização é desordenada e, de cima, quem manda está omisso. Nossa urbe hoje se chama insegurança e, de itabaianenses, nosso gentílico passa a ser apavorados.

Não suportamos mais tamanho descaso. As explicações são pífias e, pra ser sincera, elas não nos acrescenta. Queremos ações claras, emergenciais. Chega desse canibalismo humano em que se abate o que não se come, do sangue derramado que não se bebe, da perda do que é conquistado com suor em anos de trabalho e subtraído em segundos de aflição.

As grades, cercas elétricas, o sistema de segurança, cães, nada disso serve mais como medida protetiva. Os meliantes parecem mais espertos e já não agem apenas no silêncio da noite. Qualquer dia é dia, e qualquer hora é hora. A liberdade de ir e vir a eles, unicamente, está assegurada, enquanto que a nós cabe o dever de pagar impostos e do cumprimento do desarmamento.

A cúpula da segurança articula, planeja, cria e faz do papel confidente, registro de dados, e é cobrada pelo Governo que, vendado, contribui para que sejamos o estado mais violento do país, e em meio a essa arquitetura tardia bandidos agem à queima roupa, despreocupados, certos da impunidade, e já não precisam mais de dias "estudando a fita", porque seguem liderando.

Quantos pais de família, homens de bem, comerciantes mais vamos perder em latrocínio? Quantos jovens terão o ciclo vital interrompido por um tiro dado em via pública? E não venham alegar o envolvimento com o tráfico de drogas, atos infracionais, porque independentemente das especificidades, são vidas, são cidadãos, são itabaianenses, nossos irmãos.

Nos darão respostas já, ou seremos obrigados a partir para o panelaço da paz? Não se enganem, sirenes de viaturas não assustam mais, elas apenas fazem barulho e dispersam. Veículos recuperados propagados na imprensa só aumentam a certeza de que estamos vulneráveis. Se há o resgate é porque houve o delito, e mesmo com a "pintura" midiática, os palhaços não somos nós.

Não aceitaremos o silêncio, não seremos mais coniventes com o descaso que nos segrega a alma. Fazemos a nossa parte enquanto contribuintes e exigiremos o nosso direito de cidadão. "Não concordo que cada povo tem o governo que merece", mas propago que somos os detentores reais do poder e, ainda que sem arma, podemos desferir o tiro fatal que dará fim ao processo utópico, surreal que faz do nosso Sergipe, mais precisamente da minha Itabaiana, reduto de insegurança, campo de guerra.

Governador, autoridades políticas, sou jornalista, cidadã itabaianense. Aqui no estado o piso profissional é baixo e não posso andar cercada por seguranças particulares, porque preciso pagar infinitos impostos e garantir a sobrevivência. Estou à mercê, vendo colegas de faculdade morrerem, amigos sendo assaltados, o caos instalado se tornar irreversível. O que fazer?

Encerro certa de que nem mesmo eles saberão responder à indagação, e a interrogação permanecerá. Não adianta sequer perguntar como o excelentíssimo governador Jackson Barreto vê a calamidade que estamos vivendo, porque mais uma vez seremos desdenhados, assim como foram os professores, e a resposta virá gélida, sarcástica, desrespeitosa, descompromissada: "como eu vejo? Com esses óculos aqui". E agora, quem poderá nos defender? Melhor ressuscitar logo o Chapolin Colorado.

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