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Mais de 50 jovens ocuparam o acesso de entrada ao bloco C e garantem não haver prazo para saída

No Campus serrano, onde há dois anos não se tem aplicações de provas do Enem, os universitários protestam contra a PEC 241 e intensificam a mobilização ‘fora Temer’.
por Iane Gois
04/11/2016 11:06h
Atualizado em 04/11/2016 12:02h
Parte dos ocupantes após entrevista ao portal (Fotos: Alef Andrade)
Parte dos ocupantes após entrevista ao portal (Fotos: Alef Andrade)

Por Iane Gois DRT 1458/SE

 Barracas de camping, garrafas de café, cadeiras obstruindo a passagem de acesso ao bloco C da Universidade Federal de Sergipe (UFS), campus de Itabaiana, contemplam o novo cenário da instituição de ensino superior desde as 17h da última quinta-feira (03), quando estudantes resolveram ocupar a área em protesto à PEC 55, antiga PEC 241, Projeto de Emenda Constitucional do governo Temer que prevê o congelamento dos gastos públicos pelas próximas duas décadas.

De acordo com Leonan Leite Leal, estudante de jornalismo e um dos organizadores da ocupação, cerca de 50 universitários, número, segundo ele, considerado surpreendente ante a realidade cultural no município no tocante ao apoio a movimentos estudantis, já aderiram ao protesto, que ainda não completou 24 horas, mas já ganhou espaço na imprensa e, ao contrário do que foi propagado por radialista de emissora local, não se trata de uma reunião de “fumadores de maconha”.

“Longe de qualquer posicionamento preconceituoso, afinal vivemos em uma sociedade livre, ao menos na teoria, não estamos aqui para fumar maconha, como supôs um radialista fazendo uso dos microfones do veículo para manchar a nossa ação. Somos sim, estudantes, pagadores de impostos, futuros profissionais que, preocupados com o momento de alienação social ao qual a comunidade está sendo mantida, estamos exercendo o nosso direito democrático de, de forma lúcida e responsável, reivindicar e mostrar o nosso posicionamento contrário ao que consideramos retrocesso”, explicou Leonan.

Questionado sobre o norte político da ocupação, o estudante deixou claro que é sim um movimento político, mas livre de partidarismo. “Temos várias pessoas aqui com opções partidárias distintas, mas em prol de uma causa e isso é política. Quem restringe o termo à esfera governamental ou pública mostra, na minha opinião, total desinformação. A política é uma atividade humana e, portanto, onde houver interação haverá, concomitantemente, política”, esclareceu.

Ainda atentando para o direito constitucional da liberdade de expressão, Leonan argumentou para o fato de não ser apenas a PEC 241 o foco do protesto pacífico, ainda que o mais importante. “Não saímos do conforto de nossos lares por qualquer coisa. Aqui dizemos não à PEC 241, à reforma do ensino médio, à falta de infraestrutura das universidades públicas, ao governo Temer”, disse, ressaltando: “é por isso, por estarmos lutando pelo interesse de uma nação, que exigimos respeito e não admitiremos que o sistema nos silencie ou deturpe o nosso grito”.

Sobre a responsabilidade do ato e respeito aos candidatos que prestarão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste fim de semana, o “revolucionário” deixou claro que a ocupação foi estudada a fim de não trazer prejuízos ao processo seletivo, vez que há dois anos o campus não é mais utilizado como ponto de aplicação de provas do Exame.

“A ocupação, diferentemente de certas mobilizações, gera a oportunidade de debate, de esclarecimento, principalmente por se tratar de um espaço acadêmico. Não queremos o ‘oba oba’ e por isso fomos responsáveis o suficiente para não causar transtornos. Focamos em Itabaiana, mas estamos parceiros das outras ocupações que acontecem com o mesmo objetivo, afinal elas se completam e, consequentemente, se fortalecem”, explicou Leite.

Alertando para a imprevisibilidade da desocupação, o futuro jornalista foi taxativo ao afirmar que refeições, banho, dormida estão sendo feitos na instituição e não há perspectiva de término, principalmente ante a adesão de alunos das mais diversas faculdades, a exemplo de letras, geografia, química e psicologia, tanto da UFS quanto de universidades particulares.

 

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