Opinião

Melciades e o voo da velha águia para o renascimento

Arquiteto itabaianense foi vítima de um infarto e morreu na noite do último dia 14, em Aracaju.
por Iane Gois
16/11/2016 12:30h
Atualizado em 16/11/2016 18:07h

Por Iane Gois

Em luto, itabaianenses sentem a partida do arquiteto conterrâneo que, com seus traços sensíveis, transformou cenários em Itabaiana e Sergipe, deixando um legado que foi além dos projetos de design, edificações, os quais podem ser facilmente identificados pelo que se tornou sua marca: formas geométricas “impressas” nos trabalhos que levam a sua assinatura.

Itabaiana perdeu um ilustre cidadão, amante das artes plásticas, músico de uma sensibilidade ímpar, torcedor fiel da Associação Olímpica Itabaiana, ser humano puro e de alma nobre que, apesar do sucesso alcançado ao longo dos anos de tarefas, do patamar social, jamais abandonou a sua terra natal, pais, irmãos, amigos, e que tinha como diferencial a pureza do coração de um menino.

Contudo, para quem o conheceu verdadeiramente, Melciades de Souza fora muito mais que um pequeno prodígio que desde jovem mostrava talento para a arte. Mel, como os mais próximos o chamava, era a representação fiel do que o singelo apelido significa: doçura. Era sentimento em cada palavra, emoção em cada traço, um moço velho, como assim se considerava, que os quase 60 anos físicos eram ofuscados pelo brilho dos milhares de anos luz que transcendiam a matéria e faziam do olhar verdadeiro retrato da alma. Uma águia velha que se refazia no silêncio e na solidão trabalhava até a hora do próximo voo, comprometida em cotidianamente nascer de novo.

Como pode um coração tão bom falir de forma inesperada, sem direito ao adeus? Como explicar que os olhos futuristas se fecharam para o mundo? De quem aguardar a explosão de sentimentos caracterizados nas telas? Onde ouvir a canção que traz paz, cantada em voz de quem era sossego? Respostas ainda são vagas ante o vazio do instante, mas uma coisa é certa: no 14 de novembro de 2016 o grande astro serrano foi levado pela superlua, a lua de Mel.

Seja no desenho com pedras portuguesas criado como passarela na Praça João Pessoa, hoje inexistente, mas mantido na Fausto Cardoso, na fachada do Cemitério de Santo Antonio e Almas, na obra em andamento da Igreja Santa Clara, no Chiara Lubich, e em tantas outras construções de casas, edifícios públicos e particulares da ‘princesa da serra’, nas inúmeras pinturas que embelezam ambientes por aí afora, nas lembranças, a passagem de Mel mostra quão efêmera é a vida e como é ilusória a morte, etapa que marca o verdadeiro início para os artistas.

 A PASSAGEM

Informações de pessoas ligadas à família dão conta de após se sentir mal na tarde de segunda-feira (14) em Aracaju (SE), Mel foi ao hospital e lá foi constatado o infarto, quando tentou-se pela desobstrução de duas veias, através do cateterismo, mas sem sucesso.

Apesar da busca pelo atendimento médico assim que apresentou mal estar, Melciades concluiu o ciclo vital ainda na segunda e, de acordo com amigos dele, não havia indícios de problemas anteriores.

A DESPEDIDA

Velado desde a madrugada da terça-feira (15) no velatório de Santo Antonio, onde o último adeus foi dado, Melciades foi homenageado com inúmeras coroas de flores, com a presença de torcedores do Itabaiana vestindo a camisa do time que ele era Conselheiro e que inclusive a bandeira foi armada sobre o caixão, além das orações e pedidos de acolhimento do Pai celestial.

A representatividade conquistada ao longo do tempo e as amizades feitas culminaram na presença de centenas de pessoas que, consternadas, participaram do cortejo fúnebre e, no Cemitério de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, agradeceram pela vida de Mel com o que a ele era digno, mas não incomum, aplausos.

O ADEUS

Já no último momento, quando da preparação para o sepultamento, a homenagem ficou com representantes da Filarmônica 28 de Agosto (SOFIVA), instituição com a qual Mel se comprometera na elaboração do projeto que em um de seus espaços levará o nome dele, que fizeram do que era passatempo do artista o adeus, a música.

E foi ao som de instrumentos musicais e do cântico dos pássaros que o arquiteto, artista plástico e músico saiu do palco da terra para, no céu, ao lado do arquiteto maior, criar, traçar, pintar, cantar, ser o que foi ao longo dos 59 anos que esteve nesse plano: alegria e, como a velha águia, renascer através do que, com bico de pena, escreveu.

"A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos".
Pablo Picasso

 

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