Cidade

Adolescente descobre gravidez após ficar tetraplégica

Internada desde maio após um acidente , a jovem deu à luz a um menino.
por Iane Gois
17/11/2016 08:23h
Adolescente só descobriu gravidez 15 dias após acidente (Foto: Jomar Bellini/G1)
Adolescente só descobriu gravidez 15 dias após acidente (Foto: Jomar Bellini/G1)

O corpo frágil de uma adolescente de 16 anos que ficou tetraplégica após um acidente de carro teve na barriga toda a atenção. Apesar de falar com dificuldades e não conseguir sair da cama do hospital, Kimberlyn Cristina Pontes lembra cada detalhe do dia em que a sua vida mudou, há quase seis meses, em uma estrada de Araçoiaba da Serra (SP). Além de ter que lutar para aprender a viver novamente, a jovem descobriu 15 dias depois do acidente - durante uma cirurgia, que daria à luz uma nova vida. O G1 acompanhou a preparação dela dias antes do parto no Conjunto Hospitalar de Sorocaba (SP).

O filho de Kimberlyn nasceu durante o feriado da Proclamação da República, no dia 15 de novembro, com pouco mais de 1,7 kg e 40 cm. A jovem ficou um tempo na UTI e continua internada na maternidade do hospital. O pai do bebê está preso, segundo a família da jovem, que diz não ter mais com ele.

Davi Henrique nasceu no dia 15 de novembro (Foto: Arquivo Pessoal)
Davi Henrique nasceu no dia 15 de novembro (Foto: Arquivo Pessoal)

Já Davi Henrique, nome dado à criança pela mãe, passa por acompanhamento médico na incubadora. 

Durante a entrevista ao G1, a jovem contou que o acidente aconteceu em maio, quando voltava da casa do namorado de carona com um amigo das duas irmãs, que estavam em um churrasco. Ela lembra que o motorista resolveu ir para outro bairro comprar cigarro, começou a fazer manobras arriscadas em uma estrada vicinal do bairro Cercado e acabou batendo o veículo em um pilar de madeira.

“Eu só percebi que ele estava bêbado quando fez brincadeiras no volante em zigue-zague. Só deu tempo de colocar o cinto e olhar para frente quando o carro bateu e capotou várias vezes. Eu lembro de tudo, estava presa no cinto quando o veículo parou de ponta cabeça”, disse Kimberlyn um dia antes de dar à luz.

"Pensei que ia morrer"
Dos cinco passageiros do veículo, apenas Kimberlyn teve ferimentos graves. Todos sobreviveram sem sequelas. “Eu pensei que ia morrer, porque não sentia nada. Eu perguntava para minha irmã se eu ainda tinha meus braços e minhas pernas, pois eu achei que tinha tirado tudo”, lembra.

A garota foi socorrida logo após o acidente e passou por hospitais em Araçoiaba da Serra e Sorocaba, até conseguir uma vaga para passar por cirurgia em São Paulo, cerca de 15 dias depois. Foi só na unidade da Capital, antes de entrar no centro cirúrgico, que a família descobriu que a adolescente estava grávida de três meses.

"Mesmo com vários exames, só descobriram [a gravidez] na ressonância magnética uma hora antes da cirurgia. Não passava pela cabeça de ninguém, porque a menstruação dela estava normal até o dia do acidente", conta a mãe Luciana Pontes, de 41 anos. Já a jovem diz que começou a chorar e que não acreditava na notícia da gravidez. "Eu falava que era mentira, impossível. Depois do primeiro ultrassom eu fui aceitando. Foram vários exames de raio X que poderiam ter prejudicado o bebê", conta.

Gestação no hospital
Toda a gestação de Kimberlyn se passou dentro do hospital, já que a menina teve problemas na respiração devido a lesão na coluna e a perda de musculatura. "O pulmão dela fechou quase que completamente. Foi uma luta muito grande. A lesão foi muito alta [na coluna], além de duas pneumonias e uma bactéria", diz. Mesmo grávida, ela passou por uma cirurgia de quase sete horas na coluna.

O acidente da jovem mudou a vida de toda a família radicalmente. Com a internação, Luciana precisou deixar o trabalho como diarista para cuidar de Kimberlyn no hospital. Além da adolescente, ela ainda tem outros dois filhos e precisa revezar as semanas para conseguir acompanhar a filha em Sorocaba e da casa onde mora em Araçoiaba da Serra.

Luciana passa quatro dias no Hospital Regional ao lado de Kimberlyn e os demais cuidando dos filhos. Para isso, ela conta com doações de amigos e familiares, além da ajuda de terceiros como, por exemplo, para custear o aluguel ou bancar as fraldas usadas pela jovem. Além disso, uma campanha nas redes sociais também tem arrecadado mantimentos para a família.

Vida de trás para frente
Após o parto, agora as duas sonham com o futuro de Davi Henrique. Além do significado bíblico do nome, que remete a palavras como "guerreiro" e "amado", a adolescente ainda explica outro motivo que levou a escolha do nome: "Davi é vida de trás para frente!"

A criança nasceu de cesariana e vai passar por acompanhamento médico por ser prematuro. A expectativa é de que os dois voltem para Araçoiaba da Serra em até 40 dias depois do parto.

"Eu não vejo a hora que ela saia daqui e volte para casa. Passei a pensar dia a dia, não consigo pensar lá na frente, no futuro e imaginar. Vamos lutar no dia a dia e correr atrás da reabilitação depois que meu neto nascer para ela se recuperar de qualquer forma. Dizer que eu tenho uma visão para o futuro, eu não tenho", diz a mãe.

Para Luciana, a força e o sorriso que não sai do rosto da filha são os principais segredos para conseguir superar uma tragédia que gerou a vida de uma criança. "Uma coisa que ela nunca perdeu foi o bom humor. Tira sarro de todo mundo e dela mesmo. Isso dá uma força para a gente porque nunca vemos ela triste."

Por Jomar Bellini

Gostou? Compartilhe:

Comentários
Veja Também