Opinião

Homicídios em SE e o clichê das drogas

Violência se tornou palavra de ordem, e paz agora é lembrança.
por Iane Gois
24/11/2016 09:32h
Atualizado em 24/11/2016 10:10h

Por Iane Gois

Após as estatísticas do 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontarem Sergipe como o estado mais violento do país, tomando-se como base números de homicídios em 2015, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SE) atribui às drogas a recorrência desenfreada de assassinatos.

Não é de agora que o discurso vem sendo utilizado, e, de tão previsível, já se tornou clichê, mas a novidade se faz no apontamento dos dados de uma pesquisa feita pelo Núcleo de Análises e Pesquisas de Segurança e Cidadania (Napsec), órgão vinculado à SSP, que analisou o quantitativo de mortes com emprego de violência nos municípios de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão.

De acordo com as informações, a maioria, vítimas ou autores, dos envolvidos nos crimes contra a vida registrados em 2015 tem alguma implicação com as drogas, raiz da problemática, sendo que 95,3% dos algozes são homens com idade até 29 anos, mas o pico na faixa etária fica entre os 18 aos 21 anos, que fazem da arma de fogo principal ferramenta para o crime.

Segundo a responsável pela pesquisa, a agente de polícia Anúbia Tavares, o trabalho foi feito a fim de se compreender a prática de homicídios no estado e, a partir de então, avaliar as políticas públicas necessárias à minimização das ocorrências. “Como se pode observar na pesquisa não existe um só motivo para os homicídios, mas vários. A pesquisa tem o intuito de levantar a reflexão e buscar soluções”, justifica a agente.

Ainda pelo estudo se fez a indicação de elementos relacionados à faixa etária, grau de escolaridade, cor da pele, meio utilizado para a prática do crime e motivação, subsídios que, ainda que essenciais, não justificam a aceleração criminal que faz o menor estado da federação ser ouro em violência.

Ante os dados, a SSP vai propor a confecção de uma Carta Aberta, documento coletivo de responsabilidade na construção de políticas articuladas, preventivas e contínuas nos territórios críticos, uma ideia louvável, porém o momento pede mais.

Fala-se em medidas preventivas, quando o discurso deveria ser emergencialmente voltado ao combate. Tentam justificar a desordem como decorrência das brechas da legislação. Querem sobrepor números de vidas perdidas com quantitativo de armas apreendidas, mas parecem ainda não ter se dado conta de que à medida em que se confisca, novas aparecem, se multiplicam.

A verdade é que os inúmeros inquéritos parados, as delegacias sem efetivo suficiente, o baixo índice de elucidações, a falta de infraestrutura, dentre tantas outras deficiências, é que são os verdadeiros motivos que compactuam para a desordem em segurança pública a qual o sergipano está submetido.

O que justifica oficiais operacionais desenvolvendo atividades em setores administrativos quando poderiam estar atuando nas ruas? Será mesmo que as permutas nos comandos de batalhões e coordenação de delegacias são a melhor forma de mostrar atuação, ou apenas se tenta ganhar tempo iludindo os cidadãos com o nascimento da esperança de que o novo fará melhor?

Parecem ainda não ter percebido que o muro que separa a sociedade da criminalidade está sendo depreciado. Sim, esse muro é a polícia, são os representantes das forças de segurança que já não têm mais o respeito da farda. A arma do polícia é menos potente do que a do bandido e, enquanto as viaturas estão sem “alimento”, com pneus carecas, os carros de luxo servem, com tanque cheio, abastecidos para o crime.

Lamentável ver que em tempos de "hemorragia social coletiva" as tecnologias são insuficientes para o tratamento imediato. Violência se  tornou a palavra de ordem, e a paz agora é lembrança.

 

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