Opinião

Semana da Mulher: em Itabaiana, violência contra mulheres é mais problema social do que policial, afirma delegada

Segundo a Delegada da Mulher, muitas mulheres aceitam a agressão por dependência financeira e emocional do companheiro
por Redação do Portal Itnet
10/03/2017 11:10h

Por Taís Cristina

Hoje, 10 de março, é a última reportagem da série do Portal ITnet em especial à Semana da Mulher. Nesta, o assunto é a violência contra a mulher em Itabaiana, onde no ano de 2016, a Delegacia da Mulher, registrou mais de mil Boletins de Ocorrência registrados por mulheres contra seus companheiros, por agressão física, xingamentos e ameaças.

 “A maior questão que envolve a violência contra a mulher em Itabaiana é a dependência que a vítima tem do parceiro, seja financeira ou emocional”, afirma Gisele Teodoro, atual Delegada da Mulher e Vulneráveis da Polícia Civil de Itabaiana. Segundo ela, o assunto é mais problema social do que policial em si, no município.

“A maioria dos casos que chegam aqui são de mulheres da periferia, que em um dia denunciam o companheiro por agressão, no outro já estão com ele de novo, e no outro os dois já tem filho juntos. Essas mulheres aceitam serem agredidas porque dependem do marido para se sustentar e sustentar a família. Elas pensam assim: se está ruim com ele, pior sem ele”, afirma a delegada, que também conta que mulheres de classe média e alta só procuram a Delegacia quando estão sem aguentar mesmo, pois sentem vergonha de se expor e estar num ambiente como a delegacia, além disso querem preservar a família a todo custo.

O que não acontece com a classe baixa, onde na maioria das vezes as mulheres casam-se várias vezes, tem filhos com diferentes homens, todos com o histórico de agressores. “É mais uma questão social do que policial em si, pois tem mulher que apanha, presta queixa e no outro dia retira e volta a viver com ele. Então ela apanha de novo, denuncia de novo, retira a queixa, e isso vira um ciclo de violência que não tem fim, onde elas se acostumam com a vida de agressões”, explica Gisele.

Para a delegada, falta investimentos de políticas públicas, pois seria interessante o poder público trabalhar junto à Delegacia, e também participação de familiares das vítimas, que não estão “nem aí” se elas estão sendo agredidas. A sociedade, como por exemplo, os vizinhos, também precisa intervir quando sabe e vê uma mulher sofrendo agressão. Porém ninguém se mexe. “É aquela venha história, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, diz a delegada.

Foto: Taís Cristina

 

 MUDANÇAS COM A LEI MARIA DA PENHA

 O que mudou com a criação da Lei Maria da Penha delegada?

- As mulheres sentem-se mais empoderadas, e ganharam mais benefícios. Em Sergipe, depois da criação da Lei, criou-se delegacias especializadas em crimes contra a mulher em Aracaju, Estância, Itabaiana e Lagarto.

A Lei Maria da Penha foi criada no ano de 2006, com o objetivo de proteger a mulher da violência doméstica, seja ela provocada pelo marido, namorado, pai, tio, qualquer membro que tenha convívio familiar com a mulher.

Quando a mulher é ameaçada, xingada pelo companheiro e ela faz uma denúncia, ela pode pedir uma medida protetiva, para que ele não se aproxime mais dela, e se quiser pode retirar a denúncia. Já quando a mulher sofre agressão física, ou seja, quando ela apanha, a Lei diz que ela não deve desistir do processo.

 NÚMEROS DE 2016 EM ITABAIANA

No ano de 2016, a Delegacia da Mulher e de Grupos Vulneráveis, registrou 1.843 Boletins de Ocorrência, sendo que, de acordo com Gisele, a maioria foi registros de violência doméstica. Ainda em 2016, cerca de 160 mediações foram feitas. “A mediação é quando os dois, a vítima e o companheiro, que xingou ou a ameaçou, vem até nós, e ele assina um termo de comprometimento, prometendo que não cometerá mais o erro”, diz a delegada, que exalta que as mediações funcionam bem, e dificilmente o caso volta a ocorrer.

Já no ano passado, 182 casos viraram inquéritos e foram à Justiça, pois não houve acordo entre as partes, nesses casos, as vítimas estavam cansadas das agressões que sofriam. Em 2016 nenhuma mulher foi morta em Itabaiana por crime de violência doméstica.

Para Gisele, o maior problema que a Delegacia da Mulher enfrenta é a falta de envolvimento de testemunhas, que por medo, resolvem não se envolver e contar o que viu. Ela ressalta também que muitas das agressões físicas ocorrem quando o agressor está fazendo o uso de drogas, principalmente o crack.

Também, segundo ela, muitas mulheres que são agredidas ou ameaçadas só prestam o Boletim de Ocorrência, não dão continuidade ao caso, como forma de amedrontar o parceiro e mostrar que tem coragem e força para procurar a Polícia. A Delegacia da Mulher fica localizada no mesmo prédio da Delegacia Regional de Itabaiana, e tem atendimento 24 horas.

Confira as outras reportagens do Portal ITnet em homenagem à Semana da Mulher:

Mulheres falam sobre o que é ser mulher em nossa sociedade

Conheça a história da itabaianense Lia, que criou sozinha mais de 40 crianças

A luta contra o câncer feminino em Sergipe

O dilema de viver numa sociedade de assédio

 

Gostou? Compartilhe:

Comentários
Veja Também