Saúde Legal

Injeção mal aplicada pode matar ou é lenda?

Saiba como evitar algumas complicações após a aplicação.
por Jeferson Machado
01/06/2017 20:20h

Quem nunca ouviu falar que injeção pode matar? Esse é um dos motivos que mais causam medo nos pacientes ao tratamento via injetável. Não é apenas a agulhada, mas também o medo da dor, inchaço, perda do membro ou até a morte que levam a esse comportamento repulsivo. 

A dor e o inchaço são comuns nas aplicações injetáveis intramusculares (no músculo). Mancha no local da aplicação, nódulo e hemorragia também são complicações da aplicação intramuscular, principalmente os nódulos, que podem virar abscessos. Mas mesmo sendo comuns, nem sempre tais sintomas são considerados normais ou esperados, e podem ser classificados como uma complicação do procedimento. 

Além dos problemas acima, outros mais graves podem aparecer nas injeções intramusculares, tais como diminuição da sensibilidade do membro ou local da aplicação, infarto muscular e necrose local, atrofia da pele e tecido adiposo, contratura muscular, fibrose tecidual e lesão do nervo ciático.

Já nas injeções endovenosas (na veia), os riscos são maiores ainda, e aí sim, pode haver o risco de morte, pois a substância entra em contato imediatamente com a corrente sanguínea, permitindo que as substâncias percorram ligeiramente boa parte do organismo e órgãos. 

Alguns relatos de caso
No início desse ano uma fotógrafa morreu por conta de um erro na administração de uma injeção, na cidade de Franca (SP). A equipe do hospital admitiu que houve uma troca no medicamento que deveria ser administrado e esse erro culminou na morte da paciente.

Em 2014, uma senhora da cidade de Ourinhos (SP) relatou ter perdido a sensibilidade na perna direita e a capacidade de andar após a administração da injeção do anti-inflamatório diclofenaco sódico. O caso também repercutiu bastante na imprensa, e especialistas afirmaram que um erro na técnica na hora da aplicação pode ter atingido um nervo e causado complicação.

Já uma enfermeira da cidade de Ituiutaba (MG) morreu por consequências de uma lesão que surgiu após a aplicação de injeção no glúteo. A enfermeira ligou para uma farmácia, que aplicou duas injeções na casa da mesma, através do entregador das mesmas. O local da aplicação infeccionou e evoluiu para um quadro grave e que levou à morte.

Agora que já sabemos as possíveis complicações, surgem as principais perguntas para tudo isso: o que pode levar a injeção a causar essas complicações? E, como posso me precaver para que não haja complicações como essas?

Quais as causas de complicações nas injeções?
Alguns fatores influenciam a aparecerem as reações acima, dentre os mais comuns:

- O próprio medicamento: algumas substâncias são bastante irritantes ao tecido muscular. A concentração do medicamento, velocidade de absorção e veículos (aquoso ou oleoso) também podem influenciar na dor e inchaço.

- Local da aplicação: alguns músculos não permitem que muito volume seja injetado nele. Isso pode causar necrose, e evoluir para uma infecção generalizada.

- Injeção no braço: o músculo deltóide ainda é muito utilizado para aplicação, mas é um dos menos recomendados, pois é altamente inervado e cheio de vasos sanguíneos. Mas isso não significa dizer também que as nádegas são 100% seguras, e um erro de técnica e falta de preparo pode atingir o nervo ciático e causar sequelas para a vida inteira.

- Falta de técnica: apenas profissionais habilitados e devidamente capacitados podem aplicar injetáveis. Mesmo assim, isso não os livra de poderem cometer um erro na técnica de aplicação, caso não tomem os cuidados necessários e a devida atenção.

- Seringa e agulha inadequadas: nesse caso, atento para a utilização de seringas e agulhas contaminadas, seja pela reutilização de descartáveis ou do seu mal armazenamento.

- Múltiplas injeções no mesmo local: é preciso dar um tempo entre as aplicações no mesmo local para que o músculo se recupere totalmente e esteja pronto para uma nova aplicação.

- Alergia ao medicamento: falta de conhecimento em relação a alergias a determinada substância, ou o profissional que não questionou acerca disso, também pode levar a quadros indesejados.

- Automedicação: tomar injeção por conta própria é um grande risco. Existem vários critérios que são avaliados antes do médico escolher se deve ou não prescrever esse tipo de medicamento.

Como me prevenir de possíveis complicações no uso da injeção?
É possível ficar atento e evitar que certos problemas apareçam após a aplicação. Dentre os principais:

- Questione ao profissional se o medicamento costuma causar algum tipo de reação, como dor ou inchaço. O mesmo lhe dará as devidas orientações.

- Verifique se a seringa e agulha são descartáveis, se aparentam um bom estado e se está sendo utilizada pela primeira e única vez para você.

- Confira se o medicamento é o mesmo prescrito pelo médico, se está dentro do prazo de validade e a embalagem em boas condições.

- Verifique se o aplicador realizou a higiene das mãos, bem como do local de aplicação.

- Não pratique a automedicação e nem aceite pessoas sem capacitação e habilitação profissional para tal via de administração.

- Em caso de dor e inchaço, coloque, no primeiro momento, água fria por 10 a 20 minutos no local. Algumas horas depois, a aplicação de compressa com gelo já está liberada. Não é recomendado o uso de pano ou compressa quente.

- Não massageie o local ou faça compressa imediatamente após a aplicação. Conforme recomendado acima, as compressas estão liberadas apenas algumas horas depois.

- Evite a escolha do músculo do braço, o deltóide, como local de aplicação. Deixe que o profissional de saúde faça a escolha do local mais indicado e obedeça a essa escolha. Caso não sinta segurança, questione ao profissional a escolha desse local.

- Informe-se com seu médico se você possui alergia ou não a algum medicamento. Em caso de dúvida, consulte o farmacêutico antes da aplicação.

- Caso não sinta segurança no profissional antes da aplicação. Converse com ele, tire suas dúvidas e pondere se deve ou não continuar e dar seguimento ao procedimento.

Atenção!
Ao sentir qualquer complicação após uma injeção, procure o serviço de saúde onde foi aplicado para maiores informações. 

 Jeferson Machado Santos.
CRF-SE: 658.
Farmacêutico pela Universidade Federal de Sergipe - UFS.
Habilitação em Bioquímica Clínica pela Universidade Federal de Sergipe - UFS.
Especialista em Administração de Empresas pela FIJ-RJ.
Especialista em Farmacologia e Interações Medicamentosas pela Uninter-IBPEX.

Caso queira saber mais sobre os relatos de casos citados, acesse:
http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2017/03/tecnica-de-enfermagem-fala-de-erro-que-matou-mulher-e-chora-desculpe.html
http://www.negociao.com.br/materia/409/mulher-afirma-que-teve-perna-paralizada-apos-injecao-aplicada-no-upa.html
http://uipi.com.br/destaques/destaques-videos/2013/09/17/mulher-morre-por-complicacoes-apos-injecao-para-dor-de-garganta-em-uberlandia/

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