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O mês de setembro acabou, mas o ano permanece amarelo

Vamos falar sobre o Suicídio? Por Katiane Peixoto.
por Redação do Portal Itnet
02/10/2018 10:05h

Segundo dados do último levantamento do mapa da violência, todos os dias, 32 brasileiros retiram a sua própria vida. E, para cada suicídio, existem outas 10 ou 20 pessoas que já tentaram fazer o mesmo. Os dados ainda apontam que entre 2002 e 2012, o número de casos subiu 34%. Entre adolescentes de 10 a 14 anos, o aumento chegou a 40%.

Mas, não é comum ouvir falar sobre isso, não é mesmo? Isso porque tratar do suicídio é bastante delicado, e, por esse motivo, o assunto não é discutido com frequência. Na imprensa, por exemplo, existe um tabu a respeito de noticiar os casos, pois existe uma crença de que serviria de estímulo para que outras pessoas cometessem o ato.

E se começássemos a tratar do suicídio por outro viés, através de outro olhar? O olhar do combate à prática, das medidas de prevenção ou simplesmente do reconhecimento da sua existência. E se ao invés de buscar saber o que motivaria um suicídio, pensássemos: O que poderia evitar um suicídio?

Durante o mês de setembro, diversos locais foram decorados com a cor Amarela, a exemplo do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o Congresso Nacional, no Distrito Federal e entre outros. Mas qual o intuito? Isso acontece como forma de demonstrar apoio e aderir à campanha do Setembro Amarelo.

Para quem não conhece, o setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio. Iniciada em 2015, foi uma iniciativa do Centro de Valorização a Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Também no mês de setembro, no dia 10, é o Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio, data em que diversas entidades, desde o ano de 2003, intensificam as campanhas e promovem ações visando o combate ao suicídio.

Mas, o mês acabou e milhares de pessoas permanecem cometendo suicídio. Por que não manter o ano inteiro amarelo? O Centro de Valorização a Vida, por exemplo, faz um trabalho de prevenção durante todo o ano. Eles oferecem apoio emocional e prevenção ao suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo.

Para se tornar acessível, o atendimento funciona por telefone (181), por chat e e-mail, tudo disponível no próprio site (www.cvv.org.br), durante as 24 horas do dia. Além disso, eles fornecem arquivos com textos de estudiosos da área, folhetos e cursos gratuitos para quem tiver o interesse em ser voluntario.

Em Itabaiana, o grupo Armadilhas da Mente desenvolve um trabalho parecido, mas este é presencial e tem se mostrado muito eficaz. Conheça o projeto:

Armadilhas da Mente

O grupo foi Idealizado por Wênia Suany, diagnosticada com Síndrome do Pânico há cerca de um ano. Após o diagnostico, Wênia começou a se isolar, se sentir sozinha e então desenvolveu a depressão. Depois de várias tentativas frustradas de melhoras, ela conheceu um psicoterapeuta, que a fez enxergar além e acreditar que poderia vencer aquilo.

Um determinado dia resolveu expor em suas redes sociais o problema que ela estava passando, através de uma live relatou todas as suas dificuldades e o resultado foi surpreendente: várias pessoas a procuraram para conversar e dizer que estava passando pelo mesmo ou por algo parecido. E assim surgiu a ideia de criar o grupo, que hoje conta com cerca de 70 pessoas.

 Promovem reuniões, palestras com profissionais da área e realizam ações de cunho social, promovendo melhorias de vida para centenas de famílias. Wênia conta que hoje reconhece a importância da Síndrome do Pânico em sua vida. A síndrome foi a responsável pela sua evolução enquanto pessoa. “O grupo não é somente um grupo, se tornou uma família e o seu propósito maior e disseminar amor”.

Conheça a historia de pessoas que lutam diariamente contra as suas próprias mentes e fazem da sua luta um espelho para as demais pessoas. O que essas histórias têm em comum? Leia e entenda.

Rony, 20 anos.

“No início desse ano eu fui diagnosticado com depressão, e desde então, venho lutando diariamente contra ela. Há muito tempo já sentia uma dor muito forte em mim, mas que eu tentava me enganar e enganar a todos com o meu sorriso e a minha alegria. Chorava todos os dias, tinha medo de acordar, mas no dia seguinte eu fingia que nada tinha acontecido e deixava isso guardado dentro de mim. No início desse ano eu acabei tendo um surto, momento em que fui encaminhado para um especialista da área. Nada foi fácil. Tive que iniciar o tratamento com medicamentos, mesmo indo de encontro a minha vontade, pois as terapias já não estavam sendo suficientes. Tudo começou a piorar, e quando já não havia mais alternativa, minha única saída foi o uso de medicação. Tudo isso eu mantive em silêncio, sem expor. Mas chegou o momento em que eu não conseguia mais disfarçar. Meus olhos mostravam a minha dor, minha alma estava visível. A partir desse momento, as pessoas passaram a me ver com outros olhos. Perdi meu emprego e uma sequência de coisas, o que me fez agravar ainda mais. Caí em oura crise, passei dias de cama, sem fome, sem querer ver o sol, com medo de pessoas e sem vontade de viver. Dentro de um mês, perdi 11 quilos. Nesse período, desenvolvi a automutilação como uma forma de amenizar as dores internas. Já são oito meses de tratamento, e hoje me sinto recuperado. Mais forte, lutando todos os dias, pensando positivo e fazendo coisas que me agradam”.

Em meio a tanto sofrimento, Rony encontrou sua força em ajudar outras pessoas. Hoje, a sua meta é fazer o bem e, cada vez mais, entender a necessidade humana. Ele conta que entende que tudo na vida tem um propósito. “Estou de pé e permanecerei assim, pois hoje sei que Deus está comigo em todos os momentos, que isso irá passar e eu vou conseguir me recuperar totalmente. Sou um dos muitos brasileiros lutando contra a depressão, e trazendo mais e mais pessoas para lutar junto comigo”.

Grayce Kelly, 30 anos.

“Há dez anos tive minha primeira crise, estava na faculdade e precisava apresentar um trabalho. De repente, senti as mãos trêmulas, falta de ar, e um pavor tão grande que saí correndo. Reprovei na disciplina. A minha segunda crise, veio no ambiente de trabalho. Em toda situação que eu preciso entrar em contato com o público, me vem um incômodo por estar naquele meio. Eu penso que as pessoas estão olhando para mim, me avaliando, me julgando, sempre de forma negativa. Isso me gera um medo, onde eu tenho as sensações de passar mal. Fobia social. A partir desse momento eu busquei ajuda psicológica, psiquiátrica, tomei algumas medicações, e após seis anos, consegui ter um controle. As crises vêm, mas agora eu tenho um controle maior. Quando eu tinha um ano de idade, eu estava com os meus pais no carro e levei um tiro no rosto. Acabei perdendo a visão do olho direito”.

Hoje, Grayce acredita que essa situação vivenciada na infância, pode ter desencadeado fobia, mas sabe que o importante agora é que ela passou por cima e segue firme e forte e sempre lutando. “É para isso que estamos aqui, para vivenciarmos os desafios, e aprendermos a lutar. Então vamos à luta, porque nós somos luz”.

Erika, 24 anos.

“Meu pai faleceu há três anos, e depois de um mês, eu tive a minha primeira crise. A mais forte que tive até hoje. Pensei que seria o último dia da minha vida. Estava na universidade e as pessoas presenciaram. Eu nunca tinha sentido o que eu senti naquele dia. Eu não sabia o que era, eu não sabia como lidar, porque eu pensava que o que eu estava sentindo fosse uma coisa que ninguém sentiria. Saí da universidade às pressas, e, em casa, pedi ajuda a minha família. Fui levada ao hospital, muita dor no peito, sensação de desmaio. Após todos os exames, o médico falou que estava tudo normal em meu corpo. Ele me disse que o que eu tinha só eu poderia resolver e me indicou um psicólogo. Os dias se passaram, a angústia foi ficando maior, não conseguia viver tranquila. Infelizmente, a morte do meu pai me abalou muito. E me abala até hoje. Embora já tenha três anos do ocorrido, é como se o tempo não tivesse passado. Tudo aquilo parece estar presente em minha vida. Psicólogos, psiquiatras, exames, remédios... o medo era maior que eu, não conseguia controlar tudo isso. Sentia que estava doente e achava que fosse morrer. As pessoas diziam que isso era apenas coisa da minha cabeça e ouvir isso me deixava pior”.

Erika ficou cerca de dois ano e meio se tratando com a psicóloga, apresentou melhoras e recebeu alta. Ela permanece no tratamento com o psiquiatra, mas sabe que não quer isso para ela. “Quase ninguém me compreendia. Mas nesse tempo, conheci pessoas que já tinham passado por essas experiências e me ajudaram a lidar melhor com as crises e eu não estou sozinha”.

Adriana, 43 anos.

“Minha depressão iniciou com muito estresse no trabalho. Tive uma serie de desmaios, fui levada a urgência por diversas vezes, pressão baixa, alta... e procurei um especialista. Ele me diagnosticou com síndrome do pânico e inicio de depressão. Uma espécie de distúrbio. Comecei a tomar medicamentos e fui melhorando, mas com os estresses do dia a dia, comecei a ter recaídas. O meu esposo tem transtorno bipolar, o que dificulta ainda mais, pois não e fácil cuidar de você e lidar com uma pessoa assim. Recentemente, tive, mais uma recaída. Perdi o emprego e isso me gerou muito estresse, angústia, ansiedade e caí novamente”.

Hoje, Adriana convive melhor com os seus sentimentos e permanece positiva.  “Mas a vida é assim, a gente cai, levanta e bola para frente, porque com Deus tudo é possível e eu acredito que um dia eu vou me libertar de tudo isso”.

Todas essas histórias se cruzam por um único motivo: ser luz. Não sei se o significado de luz é o mesmo para todos eles, mas, sem dúvidas, eles são detentores de uma luz interior que irradia e ilumina tudo que está a sua volta. Todos eles fazem parte do grupo Armadilhas da Mente, um dos responsáveis por não permitir que essa luz apague ou diminua a sua intensidade.  Para finalizar, deixo aqui mais um exemplo de superação: Julian Silva, 19 anos.

"A tristeza é recorrente em mim
Mas não me corto
Não me deixo ferir
Meus pulsos são sagrados
E minha pele é forte
Eu me poeto
A caneta, é lâmina
O papel, a pele
E as palavras, meu sangue
Um sangue sagrado
Não como o do salvador
Como o de um mendigo
Que como um a flor brota no deserto
Sorri nas calcadas da vida".

Esse poema ganhou o primeiro lugar no concurso de poesia da Academia Itabaianense de Letras. O autor é Julian Silva. Ele tem 19 anos e animador de festas infantis. Julian tentou se mutilar e fez da sua dor um poema.

Você que está ai, lendo esse texto, saiba de uma coisa: você não está sozinho. Tem um mundo cheio de LUZ para você aqui fora!

Por: Katiane Peixoto

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