Para quem foi edificado a CEASA de Itabaiana e a quem deverá servir? O povo quer saber!

Comercialização agrícola em Itabaiana: Mercado de Hortifrutigranjeiros X CEASA.

A comercialização agrícola é uma atividade complexa dentre aquelas que envolvem as etapas da cadeia produtiva da agricultura, pois abrange diversos segmentos que se apropriam da produção até chegar ao consumidor final. Esse processo é fortemente visualizado no município de Itabaiana, localizado na região Agreste de Sergipe, que se define semanalmente como centro de negociação agrícola, vinculado à produção local, regional, nacional e internacional.

O comércio atacadista agrícola de Itabaiana se concentra no Mercado de Hortifrutigranjeiros e adjacências, com uma diversidade de produtos que é incomum para outros centros, cuja procedência é um tanto variável e posta para as demandas de intermediários sergipanos, baianos e alagoanos, que promoverão a chegada do produto ao consumidor final.

Para se ter ideia da grandiosidade do comércio agrícola promovido pelo itabaianense, a maior parte das verduras comercializadas advém de Minas Gerais, Bahia Goiás e São Paulo; ao passo que as frutas provêm de municípios Sergipanos, da Bahia e de Pernambuco, sobretudo dos perímetros irrigados de Juazeiros e Petrolina, além de áreas da Chapada Diamantina (BA).

Isso sem desconsiderar a demanda por frutas de clima temperado que vem da região sul do Brasil e mesmo de países como Argentina e Chile. As raízes comercializadas procedem de municípios sergipanos, baianos, alagoanos, paulistas e por vezes, do estado de Rondônia. O que remete ao comércio de animais-carnes, a maior parte dimana de municípios sergipanos, a exemplo da área sertaneja; à mediada que os galináceos também costumam provir de municípios alagoanos e pernambucanos.

Diante desse fluxo espacial por mercadoria, uma caraterística se põe muito em evidência em Itabaiana, o fato de ser a Capital Nacional do Caminhão. Sem esses veículos seria um tanto complicado a definição de Itabaiana como centro de Comercialização Agrícola no estado de Sergipe. Mesmo o itabaianense sendo considerado um “judeu encarnado” pelo seu poderio de negociação e execução das atividades, sem o caminhão suas atividades teriam um menor potencial.

Nessa logística, a realidade comercial de Itabaiana se faz um tanto diferente de outras áreas do país, requerendo espaços para aporte e desembarque de mercadorias. Fato visível no Mercado de Hortifrutiranjeiros, que semanalmente comporta cerca de 400 caminhões advindos das mais variadas partes do país, sem desconsiderar os próprios, com tempo de desembarque de mercadoria estabelecido em duas horas. 

Todos eles alimentando um fluxo comercial de aproximadamente 200 atacadistas atuantes somente dentro do “Mercadão” com verduras, desconsiderando os comerciantes no Largo José do Prado Franco, cujo quantitativo é difícil de precisar. Esses duzentos atacadistas têm comercializado por estimativa, cerca de 1 milhão de toneladas de verduras, sobretudo importadas, visualizada pela procedência dos caminhões, com placas locais e de outras unidades federativas.

O “Mercadão” é considerado por muitos comerciantes locais como uma “mãe”, pois sempre é possível adentrar suas estruturas comerciais, podendo ser demarcado espaços de comercialização, de acordo com a fiscalização municipal vigente, pagando baixas taxas de manutenção. Esse espaço precisa de uma reestruturação espacial para a manutenção do circuito atacadista e varejista, sobretudo em nível organizacional. Pensava-se que com a abertura da Central de Abastecimento de Itabaiana isso fosse possível.

A CEASA de Itabaiana, inaugurada em março de 2021, já está demarcada como obra sem finalidade para a atividade atacadista de Itabaiana, haja vista as áreas postas à disposição dos comerciantes serem consideradas pequenas, precisando agregar vários espaços num só.

Além disso, falta logística para o desembarque de mercadorias em caminhões e os valores que estão sendo cobrados por ponto comercial são elevados e não condizem com a realidade socioeconômica de um município que tem nas suas veias a negociação como prática comum.

Toda essa condição tem inviabilizado o funcionamento da central, e desacreditado sua finalidade, sobretudo junto aos atacadistas de Itabaiana, pois muitos desses assinaram contratos com a Empresa responsável por esse fixo e tem buscado na justiça uma forma de anulá-lo, inclusive com a organização social da Associação dos Comerciantes Hortifrutigranjeiros de Itabaiana.

A associação já está com ação junto ao Ministério Público visando alívio da rescisão contratual (o contrato prevê o pagamento de um ano pelo espaço locado, mesmo sem ser utilizado) e a saída imediata de um infortúnio que tem trazido muito prejuízo. 

Deste modo, após a inauguração, a CEASA tem sido uma incógnita, mesmo com negociações sendo estabelecidas frequentemente entre gestão pública municipal, comerciantes e diretoria do fixo.

Todas essas sendo frustradas mediante as obrigações agregadas pela empresa dirigente do estabelecimento, que precisará fazer investimentos na manutenção, assim como, na impossibilidade de muitos comerciantes conseguirem pagar pela manutenção dos espaços previamente negociados. Fato o qual é incomum a CEASA de Aracaju e mesmo a maior Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP).

Logo, ficam bem definidas duas perguntas: Para quem foi edificado a CEASA de Itabaiana? A quem deverá servir? Diante da problemática, muitas cenas serão ainda assistidas, haja vista, a edificação desse empreendimento não ter considerado a realidade e as necessidades locais dos comerciantes de Itabaiana.

Por Diana Mendonça de Carvalho – Doutora em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe