Estilo ofensivo, visão realista e sonho pelo acesso: confira a entrevista exclusiva com Daniel Neri, novo treinador do Sergipe

Depois do início ruim de temporada e a demissão do treinador Elias Borges, o Sergipe optou por uma escolha diferente no comando técnico. Foi a procura de um perfil novo, pesquisou mais afundo no mercado e encontrou o português Daniel Neri, treinador de 42 anos campeão de dois estaduais diferentes nos últimos anos.

Para a torcida do Mais Querido conhecer um pouco mais sobre o que pensa Daniel Neri, o Portal ITNet conseguiu uma entrevista exclusiva com o novo técnico colorado. Mas antes, vamos conhecer um pouco da história dele.

Quem é Daniel Neri?

Nascido na cidade de Amarante, em Portugal, o treinador passou por equipes de base do seu país antes de desembarcar em terras brasileiras. Formou-se como técnico dentro do tradicionalíssimo Futebol Clube do Porto, um dos maiores clubes do continente europeu. Por lá, foi coordenador técnico e treinador do Sub-15, além de desempenhar outra série de funções.

Depois disso, passou por Dragon Force e Sport Progresso. Chegou por aqui foi em 2013 e seus primeiros desafios foram comandando as categorias de base do Porto – mas este, o de Pernambuco – e do tradicional Sport Club do Recife. No Leão da Ilha, colecionou bons frutos, incluindo um aproveitamento de 100% na Copa São Paulo de 2016, perdendo a invencibilidade apenas nas quartas de final, quando foi eliminado para o Cruzeiro.

Além desses feitos, foi bicampeão pernambucano com o Sub-20 do Sport e chegou até a semifinal de uma edição de Copa do Brasil, quando perdeu para o São Paulo.

Os desafios e títulos no profissional

Seu primeiro clube profissional foi o Flamengo de Arcoverde-PE, em 2018. No entanto, permaneceu por apenas cinco jogos e saiu da equipe. De lá, ele partiria para o clube onde faria história futuramente: o Salgueiro, também de pernambuco.

Chegou ao Carcará em 2019, para comandar a equipe na Série D do Campeonato Brasileiro daquele ano. Em 2020, o maior feito da sua carreira como técnico: conquistou o Campeonato Pernambucano de 2020. O primeiro e único treinador campeão do estado de Pernambuco com uma equipe do interior.

Por lá ficou até abril de 2021, quando rumou para o Sampaio Corrêa, onde também levantaria outro troféu. Na Bolívia Querida, no entanto, Daniel teve menos influência. Isso porque ele chegou na reta final do Campeonato Maranhense, comandando o Sampaio em apenas quatro jogos – dois empates e duas vitórias. Apesar do pouco tempo, foi o suficiente para carimbar mais um título em seu currículo.

Por fim, ainda no ano passado, assumiu o América de Natal para a disputa da Série D do Brasileiro. No Mecão, novamente uma passagem rápida: três jogos, duas derrotas, uma vitória e menos de um mês de trabalho para o gajo.

Agora, ele chega em Aracaju numa difícil missão. Não vence uma partida há um mês, é lanterna do seu grupo na Copa do Nordeste, está na segunda posição do grupo A do estadual, empatado em pontos com o Atlético Gloriense, e ainda enfrenta o Cruzeiro pela primeira fase da Copa do Brasil.

Confira agora com exclusividade que o novo comandante alvirrubro, Daniel Neri, pensa sobre futebol, o elenco, o clube e as expectativas para esta temporada!

A visão de Daniel sobre Copa do Brasil e Copa do Nordeste

Neri começou a entrevista destacando as três competições que o Sergipe está participando e explicando as limitações que resultam ao possuir um orçamento mais baixo. O português frisou bastante a diferença de realidades entre Sergipe e Cruzeiro, adversários nesta noite de quarta-feira pela Copa do Brasil.

“O Sergipe está em três competições. Uma, é a Copa do Brasil, que é mata-mata, e pega logo uma equipe muito forte que é o Cruzeiro. É preciso ter consciência do nível que estamos a disputar. Há diferenças no orçamento, há diferenças no que o dinheiro consegue comprar. Há coisas que ele não consegue buscar, mas há outras que todos nós sabemos que o dinheiro consegue e quem tem mais dinheiro tem mais capacidade para buscar isso”.

Ele também completou sua fala afirmando a sua crença no grupo de jogadores do vermelhinho.

“Pegamos logo o Cruzeiro, que é um time com poderio de orçamento. Não vou falar que é um clube grande porque sabemos que ele é e o Sergipe também é. Acreditamos que com os jogadores que temos e o trabalho que eles têm desempenhado conseguiremos fazer um bom jogo contra o Cruzeiro. É por isso que vamos lutar”, disse ele.

Além da Copa do Brasil, Daniel também fez a sua avaliação sobre a Copa do Nordeste. Atualmente, o Sergipe é o lanterna do grupo A com apenas um ponto – são quatro derrotas e um empate em cinco jogos.

“Temos a Copa do Nordeste, que também é uma competição de nível alto. Pega times de Série A, Série B, um ou outro de Série C ou D. E aí batemos novamente na mesma tecla: se formos ver quem normalmente é campeão da Copa do Nordeste, são times que têm orçamentos monstruosos comparados com o nosso, temos que considerar que isso é verdade, não tem como fugir disso”, reiterou.

Apesar do destaque as diferenças de realidades entre o Sergipe e os clubes destas competições, o comandante não deixou de mostrar positividade em sua fala.

“Há coisas que o dinheiro não compra e a isso nós também nos agarramos. É nessa capacidade de superação que o ser humano tem, na capacidade inteligência e criatividade para trabalhar problemas e resolvê-los com o dinheiro que tem na mão. É nisso que vamos nos agarrar e batalhar em todas as competições. Mas também não posso dizer que é fácil e que vamos ganhar de 10 a 0 porque isso não vai acontecer. O que podemos fazer é trabalhar muito e disputar os jogos com vontade de vencê-los até o fim”, disse ele.

Suas ideias táticas

Quando perguntado sobre o modelo de jogo que pretende implementar, Neri declarou ser um treinador ofensivo, mas que não abre mão da flexibilidade a depender do cenário que encontrar.

“Eu espero que a gente consiga jogar um futebol ofensivo, é assim que eu gosto do jogo. Mas se isso me expuser, se me fizer arriscar, não ter condições para sustentar esse jogo e criar mais situações de gol na minha baliza do que na do adversário, então irei reconsiderar”, analisou.

Se antes a bronca da torcida do Sergipe era com o modelo defensivo e reativo de Elias Borges, agora as expectativas podem ser diferentes. Ele completou a análise reiterando sobre a necessidade de tempo para que o trabalho seja bem desenvolvido.

“A ideia inicial, com os jogadores, competições e adversários que temos, é ter um jogo ofensivo. Um jogo que trate bem a bola, que crie e nos ajude a chegar ao gol. Eu gosto desse estilo. Tudo depende da nossa capacidade de chegar lá. Há pouco tempo para trabalhar, temos jogo atrás de jogo. Trabalhar o ataque é um processo que demora, é preciso treino, é preciso sistematizar processos que tem que ser muito rápidos, jogadas muito rápidas para furar a defesa do adversário. É preciso considerar muita coisa, mas neste momento este é o norte que estamos a dar ao trabalho”, concluiu.

Reforços no elenco

Outra grande reclamação da torcida alvirrubra é referente ao elenco. Os comentários nas redes sociais são constantes na busca por contratações. Para ele, o elenco não está fechado, mas ele gosta das peças que possui.

“Os elencos nunca são fechados, temos bons jogadores, cremos sempre a melhorar todos os níveis e vamos sempre buscar essas melhorias. No momento, pelo que vi, percebemos que temos gente de qualidade no elenco, então a primeira coisa é fazer render aqueles que já estão dentro, esse é o principal”.

Planos para o futuro

Apesar do Sergipe precisar de resultados imediatos, Neri também ponderou sobre o futuro.

“Nós do clube, a torcida, imprensa, nós temos que saber quem somos e onde queremos chegar. Isso é o principal. Não adianta querer mais do que se pode porque a gente tropeça, morre nas expectativas e só anda para trás ao invés de andar para frente. Vai se afundando. Temos que ter consciência de que estamos a disputar algumas competições que não são fáceis. temos muita capacidade de superação, é a isso que vamos nos agarrar”, disse Daniel.

Outro ponto tocado por ele foi sobre o projeto do clube atualmente presidido por Ernan Sena. Segundo o português, é um projeto consistente e realista.

“É um projeto com os pés no chão. Foi por isso que eu vim. Dizer a um jogador ou alguém da comissão que vai ganhar um valor e não ter para pagar e no final não ganhar nada, isso ninguém gosta de ouvir. Todos temos nossas contas. é um projeto que o pé no chão existe, mas é ambicioso, subindo a escadaria através da consistência, sustentabilidade e eu acredito nesse projeto. É verdadeiro e consistente. Há uma alicerce para sustentar a subida e não sofrer uma queda que caia no fundo de uma vez”.

Ele ainda foi mais afundo, explicando tudo que engloba, em sua visão, um projeto de sucesso.

“A torcida quer chegar lá o mais rápido possível, nós também queremos, mas não é fácil, não se consegue as coisas de uma vez. Tem que haver ideias no projeto, cooperação de todos para abraçar um projeto em comum e erguer o Sergipe a uma terra fértil. É um clube que quem anda no meio do futebol sabe que tem potencial par ir longe. É da capital, tem uma infraestrutura boa para o nível que estamos, mas claro que pode melhorar. O financeiro acompanha o competitivo, é um todo que precisa acontecer com fluidez. Tudo que é grande, possui um caminho para chegar lá. As coisas não acontecem do dia pra noite, é o trabalho que se faz no dia a dia, ele precisa durar algum tempo para que dê frutos. Não sei se a curto prazo, mas lá na frente iremos sorrir e festejar muito”, disse.

Apelo para a torcida

Por fim, o treinador pediu pelo apoio da torcida colorada. Pedido esse, inclusive, que veio em bora hora. Não apenas pela necessidade de apoio para a decisão de hoje, mas também pelo clima conflituoso entre torcida e diretoria no atual momento.

“Precisamos muito da nossa torcida. Não podemos entrar em campo apenas com 11, temos que entrar com 12, com 13, 14 jogadores. Nos jogos em casa precisamos daquele apoio, isso ajuda muito os jogadores. Tudo isso vai nos fazer manter um nível alto nas três competições. Não será fácil, do outro lado terá gente com poderio. Vamos lutar e honrar essa camisa que é histórica, queremos muito fazer o Sergipe chegar a Série C, Série B. Óbvio que isso não acontece a curto prazo, é um projeto que se faz em várias mãos”.

Foto: Antônio Soares/CS Sergipe