Cidade

Carta aberta para João Alves - Por Antônia Amorosa

por Redação do Portal Itnet
25/11/2020 07:55h

Da sua boca, a meu respeito, quando me via, eu só via este largo sorriso, elogios a artista e um respeito a minha trajetória, que eu percebia no jeito de abordar, de tratar, de me receber.

Nunca recebi de você, um só telefonema, um só pedido de apoio a nenhuma campanha que fez - isso é respeito ao meu papel público e consciência que essa decisão pertencia apenas a mim.

Tivemos poucos encontros para conversas longas mas, aquelas em que tivemos, você só falava do seu amor por Sergipe e do que gostaria de fazer por sua gente.

Sabe, João... Quando penso em você, vejo apenas você! Quando penso em Maria, vejo apenas Maria! E assim sucessivamente. Você e Maria receberam uma missão específica, embora caminhem juntos. Personalidades diferentes, você quebrou paradigmas e mostrou a Sergipe que um homem que pensa grande não agrada quem pensa tacanho.

Você, como todo homem público, por ousar fazer, errou e, por tentar fazer, acertou. É impossível pensar nas grandes obras deste Estado e não ver que você pensou primeiro. Depois de você, não tivemos ainda nenhum homem público com a sua ousadia, a sua visão futurista, o seu entendimento que posto, quanto maior, maior deve ser também a visão do estadista. Não se governa apenas para quem vive naquele momento, mas para quem ainda virá.

Hoje, gerações testemunham espaços que foram pensados e realizados por você - o homem que foi perseguido por seus opositores por anos, para que Sergipe o odiasse. Mas, mesmo assim, muitos ainda o amam e o respeitam por saberem que João foi um missionário político. E não deixou sucessor porque só nasce um João como João, de século em século.

Hoje, onde estão os teus opositores, e o que fizeram mais do que você conseguiu fazer, no conjunto do seu serviço público?

Quando cheguei em Aracaju na década de 80, isto em 1985, a Atalaia era uma praia como outra qualquer do planeta. O que você ousou fazer em plena areia, foi de uma loucura ao olhar comum, hoje surpreendente. Você fez areia de praia ser espaço de economia e entretenimento. Que visão genial, João! Confesso que quando ouvi você dizer "minha querida! Imagine uma lagoa ao lado do mar!" Minha resposta silenciosa foi: "Impossível!!! Na praia de Atalaia?!". Mas, para você, Sergipe tinha tudo para ser uma Califórnia brasileira.

Ninguém acreditou mais na pujança turística deste Estado, do que você , João!

Você tinha algo em seu jeito de governar que me surpreendia! Eu via um brilho de esperança em seu olhar.
Fui sua hóspede em São Paulo, e ouvia sua voz no corredor, logo cedinho, dando bom dia a empregada com um entusiasmo que eu não tenho, ao menos pela manhã, bem cedinho!

Se eu fosse lhe definir em uma palavra, eu o chamaria de "entusiasta". Que significa: cheio de Deus.

O homem, mais do que sua ideologia, todas relativas a teorias estranhas, só é revelado em seus frutos. Quem quer ver João, precisa olhar mais atentamente para as obras que ele criou para ajudar Sergipe, a avançar.

Hoje, quando olho para meu Sergipe, que acompanho sua trajetória política e administrativa há mais de trinta anos, vejo um Estado como um barco a navegar sem destino certo. Vejo cidades maquiadas, sem obras estruturantes, sem alguém ousado que coloque o turismo para a frente, com obras estratégicas movimentando a economia.

A Cidade que você serviu pela primeira vez, lhe deu em 2012, a chance de governar mas, nem você, nem ninguém sabia que você já estava doente. Quem lhe observava mais atentamente, sabia que você não estava bem, que não era o João que acordava secretário para trabalhar às cinco da manhã e podia chamar para reunião, até na madrugada, se fosse preciso.

Na prefeitura, vimos um João que não conseguia acompanhar a velocidade dos fatos diários e, por estar doente, e isso só foi descoberto e revelado, no último ano do seu governo, ficou fácil para seus opositores vencerem sua fragilidade mental, que lhe fazia esquecer de quase tudo.

Não guardo na memória o homem que não lembra porque sua memória está comprometida. Lembro do homem que ouvia música clássica enquanto trabalhava. Lembro do homem de sorriso e gargalhada fácil. Lembro do homem que sonhou um Sergipe grande, mesmo que muitos ainda a pense pequeno. Lembro de um João temente a Deus, que me enviou a punho, uma carta emocionada com meu livro "Matheus em Cordel", dizendo que só alguém que está em Deus, poderia escrever algo tão maravilhoso. Senti sua emoção nesta carta que guardo como um presente a dizer "continue escrevendo".

Hoje, ao saber que seu coração enfrentou um cansaço no bater diário, neste mesmo coração que amou sua terra como poucos, uso o dom da escrita para lhe escrever, mesmo que não leia, uma carta de carinho e respeito a sua história.

Sempre irei me orgulhar em dizer que um negro enfrentou o preconceito velado de Sergipe, e governou nosso Estado por mais de uma vez, sendo odiado por quem não lia as entrelinhas da história.

Sempre irei me orgulhar dos seus acertos, sem ignorar seus erros, para não esquecer que estar humano é errar, mesmo no poder.

Não sei, João, se você volta para a casa de sua casa terrena, ou se será chamado para a casa eterna. Meu espírito está preparado para receber qualquer uma das notícias porque o seu sofrimento, causa uma dor em mim. Se tudo que está passando é para ganho da sua salvação, porque Paulo diz em uma de suas cartas que se um corpo é entregue ao inimigo, em vida, há promessa de salvação para aquela alma, digo que sofro pela dor da sua carne, mas me alegro no espírito em saber que seu galardão está guardado nos céus, por Aquele que lhe conhece e é O Único que pode, de fato, lhe julgar.

Sou uma eterna dependente do amor de Deus! Em nome deste amor, peço a Papai que esteja com você e conceda força a sua Maria, seus filhos e netos, seus amigos de uma vida, e dê aos seus inimigos, a oportunidade de reconhecer seus méritos, em vida.

Deus lhe abençoe, querido João! Minha alma, em silêncio contrito, ora por sua alma! E meus olhos, sem que me obedeça, acompanha meu digitar, embaçando minhas janelas de areia...

Por Antônia Amorosa, carta escrita na semana passada, quando João Alves foi internado

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