Machado revela desejo de disputar o governo
Em entrevista ao Correio de Sergipe, José Carlos Machado, deputado federal eleito em 2006 demontrous desejo de disputar o governo estadual em 2008. Confira abaixo a entrevista completa. Correio de Sergipe - Mesmo com auxiliares e amigos em xeque, sob denúncias de corrupção, Lula acaba de ser reeleito presidente com uma considerável diferença de votos sobre Geraldo Alckmin. Este resultado atesta que a corrupção está banalizada no país?José Carlos Machado - Veja bem, temos que analisar o resultado destas eleições sob dois ângulos: à primeira vista, a vitória de Lula foi contundente. Até porque ele teve mais de 60% dos votos válidos, enquanto seu adversário teve 40%. Mas se levarmos em conta o número de abstenção, os votos nulos e brancos, Lula perde a eleição com uma diferença de mais de 7 milhões de votos. O fato é que os votos de Alckmin, brancos e nulos superaram os de Lula. Então, isso precisa ser analisado. Mas o presidente é Lula, com todas as trapalhadas arquitetadas pelo PT e com o conhecimento do presidente. Não é possível que um homem tido como extremamente inteligente, porque não foi à toa que ele saiu de líder sindical para ser presidente da República, deixar acontecer tanta safadeza ao seu redor sem o seu conhecimento. Mas o grande julgador disso tudo foi o povo, e deu o direito a ele, através do voto, de governar por mais quatro anos. E as comemorações já começam de forma atrapalhada. Cito como exemplo, o discurso do ministro Tasso Genro, das Relações Institucionais, quando disse que 'acabou a era Palocci (do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci). Isso provocou um tumulto dentro do próprio governo. Dizem até que acabou com o brilho das comemorações. A era Palocci significa irresponsabilidade fiscal, possibilidade de votar da inflação coisas que deixam o governo Lula perplexo por conta das atrapalhadas patrocinadas por membros do governo que pertencem ao Partido dos Trabalhadores. E o governo tenta consertar tudo. É o que vivemos. Lamentavelmente, um país com tanta potencialidade vive um quadro de extrema desigualdade. Poucos ricos nas regiões Sul e Sudeste, e muitos pobres no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Há dois Brasis: o rico e o pobre. Este é o principal problema, e precisa ser combatido. E só se combate isso com investimentos públicos. E percebo que não houve disposição do governo Lula neste primeiro mandato, como não vai haver no segundo, para se voltar para uma política de investimentos públicos, sobretudo, nas regiões mais pobres. O instrumento para isso é o orçamento público, que deve ser concentrado na região mais pobre. Acontece justamente o contrário, porque quem tem força política são os estados das regiões Sul e Sudeste. Não faço política achando que quanto pior melhor, mas acho que a situação é muito difícil. Nestes quatro anos, o Brasil crescer a metade do mundo, em termos de média. E da América Latina, só superamos o Haiti. É profundamente lamentável: estamos crescendo uma média de 2,5% enquanto Argentina 7%, México 6% e Chile cresce 9%. Espero que neste segundo mandato Lula se volte para esta questão da desigualdade. C.S. - Mas, paradoxalmente, a maioria do eleitor de Lula não estaria justamente nas regiões mais pobres? J.C.M - Não podemos desconhecer o efeito avassalador que essa política social de Lula - sobretudo o bolsa família - teve nas camadas mais pobres. Tivemos depoimentos de pessoas dizendo 'hoje eu compro carne'. Não podemos deixar de reconhecer também que o poder de compra do salário mínimo cresceu muito. Hoje o assalariado compra muito mais do que comprava, há seis anos - sobretudo alimentos. Se você chegar para um cidadão de baixo poder aquisitivo e perguntar o que é bom para seu Estado, para sua região, ele não quer saber. Ele está preocupado em saber o que é melhor para ele e sua família. Hoje o pobre está comendo mais. E parte disso é fruto dessa política compensatória, que eu não concordo na íntegra com ela, apesar de reconhecer que ela tem seus méritos, vejo também defeitos gravíssimos. Acredito que a questão não pode ser resolvida assim de forma tão simplória. Você está na miséria, aí eu lhe dou R$ 90,00 por mês e espero que isso seja solução. Isso pode ser feito emergencialmente, mas o problema tem que ser combatido é com investimento público. Quando tivermos uma população educada com direito a uma boa saúde aí tudo ficará mais fácil. C.S. - O PSDB, partido aliado ao PFL, teve oito anos à frente do governo federal. Não deveria ter evitado este quadro? J.C.M - Olha, apesar de ser aliado do presidente Fernando Henrique Cardoso, o PFL de Sergipe sempre manteve discordância com a sua política econômica. Eu não tive nenhum entusiasmo, pois se tivesse teria com o atual governo. Pois não existe nenhuma diferença. Existe uma política de arrocho fiscal adotada por FHC e que teve continuidade com Lula. E não concordo também com essa idéia que já vem de 12 anos de poupar para pagar juros. Isso impõe ao brasileiro, sobretudo à população mais pobre, um sacrifício extremo. O governo pára de fazer investimentos para assegurar recursos para pagamento de juros. Veja que situação avassaladora: o principal programa social do governo Lula chama-se Bolsa-Família - é R$ 1 bilhão por mês. Ou seja, ao longo de 12 meses, o governo gasta em torno de R$ 12 bilhões com este programa. E a conta de juros mensal e de R$ 14 bilhões. Então se paga de juros por mês mais do que se gasta com o Bolsa-Família por ano. Todos os investimentos em infra-estrutura no país representam menos da metade do que se paga de juros por mês. C.S. - Isso sem levar em conta a alta carga tributária, não? J.C.M - Esta é terrível. Olha, se formos analisar as questões que impedem o Brasil de crescer temos vários fatores. Primeiro o que sai de muito dinheiro pelo ralo da corrupção é uma coisa vultosa. Falam em tanto dinheiro que não tenho coragem de estimar este valor. Cerca de 40% de tudo que você produz neste país vai para os cofres dos governos federal, estadual e municipal. É como se o trabalhador destinasse os salários de quatro meses apenas para garantir a máquina pública. Imagine o pequeno empresário, tudo que ele produz por ano tem que destinar para o pagamento de impostos e contribuições. Há um projeto de reforma tributária tramitando na Câmara Federal, há mais de quatro anos, e a gente (os deputados federais) não consegue votar. E não conseguimos por conta de reações que partem, sobretudo, dos estados mais ricos. As regiões Sul e Sudeste ficam com cerca de 80% de todos os impostos arrecadados neste país. Você imagine o tamanho da desigualdade. Somente São Paulo detém 40% do PIB. Há países com uma carga tributária próxima a do Brasil, mas o cidadão que paga seus impostos nestes países recebem serviços de elevadíssima qualidade. Na Inglaterra, a carga tributária é perto de 40%, mas há serviços de qualidade. No Brasil não. A carga é elevada, mas os serviços são de péssima qualidade. É como disse uma vez brincando o economista Delfin Neto: 'o Brasil se parece com um país fictício'. Ele criou o nome 'Engana'. È uma mistura de Inglaterra com Gana, na África. O Brasil arrecada como a Inglaterra, mas na hora de fazer o dinheiro retornar em forma de serviço, age como Gana. E só existe uma forma de se diminuir a carga tributária: diminuindo os gastos. Está no orçamento de 2007 (do governo Lula) somente para gastar com publicidade R$ 1,2 bilhão. Um bilhão e duzentos mil reais por ano para gastar com publicidade. Muito mais do que o governo pretende investir em saneamento. É justo? Na minha avaliação, não. Dá para se fazer um corte drástico: pelo menos 80% disso. C.S. - E Sergipe? O que esperar do orçamento de Lula em 2007? O senhor esteve com o governador eleito Marcelo Déda esta semana. O assunto foi tratado? J.C.M - Terça-feira, ele visitou meu gabinete e conversamos sobre tudo, principalmente orçamento. Eu coloquei à disposição dele as emendas de bancada que foram aprovadas para o orçamento deste ano de 2006, algumas tendo como responsável pela execução do Estado de Sergipe, e ele com aliado de Lula pode deferir junto aos ministérios. Conversamos também sobre o orçamento de 2007. Disse a ele que estou pronto para colaborar e que não vou criar problema nenhum. Disse que quando estiverem em jogo os interesses de Sergipe, ele pode contar comigo. Agora disse a ele: eu espero contar com você Marcelo Déda é na luta contra as obras de transposição das águas do Rio São Francisco. Ele riu e reafirmou que no exercício do seu mandato haverá uma postura clara contra a transposição, e a favor da revitalização. Com o presidente Lula e o governador Marcelo Déda, as emendas de bancada terão importância, pois possivelmente serão pagas pelo governo federal, pois lamentavelmente, nestes quatro anos, que Sergipe foi governado por João Alves e Lula presidente, menos de 10% das emendas de bancadas foram liberadas. Num total desrespeito, numa total falta de consideração para com o povo de Sergipe. C.S. - O que tem de concreto nesta história de que o senhor também teria tratado com o Déda uma possível ida sua para o Tribunal de Contas? J.C.M - Eu diria que 98% do que conversamos foi sobre orçamento. Sobre Tribunal de Contas, eu preferi ficar calado porque: na vaga de quem? Já surgiu a vaga? Se houver uma vaga será em setembro de 2007. C. S. - O senhor participou de uma reunião da executiva nacional do PFL. Quais os principais pontos deste encontro? J.C.M - O que ficou claro foi a missão do partido de continuar na oposição. O presidente Jorge Bornhausen foi muito feliz quando disse: 'nós não vamos atravessar a rua (do Congresso para o Palácio do Planalto). A nossa trincheira é o Congresso. O presidente poderá conversar através de seus líderes no Congresso'. Então, por conta disso, o PFL se coloca numa posição muito clara de oposição com responsabilidade e com espírito público. C.S. - Até porque as urnas respaldam esta posição, não? J.C.M - Você colocou muito bem. Se as urnas me elegeram deputado federal, mesmo sem eleger o meu candidato ao governo, é porque quer que no exercício do mandato eu faça oposição ao governador Marcelo Déda. Está claro: é um desejo do povo. Eu sou grato porque recebi os votos, como é que vou descumprir a determinação que me foi dada pelos eleitores? Eu queria fazer um apelo por causa de alguns comentários de que na Assembléia Legislativa o governador Marcelo Déda já dispõe de 10 deputados. Mas os deputados estão com ele, porque votaram com ele. Há comentários de que deputados da coligação de João Alves estariam dispostos a se aliarem a Marcelo Déda, mas eu acho isso muito complicado. Todos agradeceram ao eleitor. Tem que agradecer, mas é preciso cumprir a determinação que o eleitor lhe deu. Se o parlamentar apoiou o governador João Alves Filho, precisa fazer oposição ao governador eleito, porque foi isso que o povo determinou. É preciso uma reflexão, mas, infelizmente, existem em Sergipe grupos políticos acostumados a isso (apoiar sempre quem está no poder, mesmo sendo eleito na oposição). C.S. - Mas esta oposição deve ser feita sem prejudicar os interesses de Sergipe, o senhor não concorda? J.C.M - Uma oposição com responsabilidade. Fiz oposição ao governador Albano Franco, durante dois anos, e nunca tive problema de relacionamento nem com ele e nem com aliados seus na Assembléia Legislativa. Os poderes são independentes. E essa independência permite que projetos da oposição sejam aprovados, e projetos de deputados da situação sejam analisados e até reprovados. Eu tive uma conversa com o deputado Francisco Gualberto (aliado de Déda) que procura através de um projeto garantir um percentual da receita corrente líquida para a preservação da Bacia hidrográfica do Rio Sergipe. É um projeto belíssimo. E eu faço um apelo aos meus aliados: porque não aprovar este projeto? Não temos, por sermos da base do governo, mais realista que rei, não. Ora, tenho certeza que um projeto como este devidamente explicado ao governador, ele não se oporia. C.S. - O PFL deve ter candidato à sucessão municipal em Aracaju? E qual seria o melhor nome do partido?J.C.M - Uma análise fria das eleições mostra que perdemos o governo, mas elegemos uma senadora, três deputados federais e quatro estaduais. E isso demonstra que melhoramos em relação a 2002. É o caso do Mendonça Prado, do José Carlos Machado. E o próprio governador João Alves teve a melhor votação em Aracaju dos últimos 16 anos. Isso nos mostra que temos todas as condições de disputarmos a Prefeitura de Aracaju em 2008. E aí eu me associo àquela tese de João Fontes: daqui a um ano, o povo de Sergipe, de Aracaju, já vai estar com saudade de João Alves. Na minha avaliação, é o nome imbatível para ser candidato a prefeito de Aracaju. C.S. - Então o senhor defende João 2008 para prefeito de Aracaju?J.C.M - Defendo, defendo com veemência. E a primeira oportunidade que eu tiver vou conversar com ele sobre isso. C.S. - O senhor sente este desejo no governador João Alves Filho?J.C.M. - Eu não sei. Política é um negócio complicado. Nem sempre a gente diz o que pensa. Ele tem total condição de se candidatar a prefeito de Aracaju, e se for eleito fazer um extraordinário trabalho. Para ele não seria desonra nenhuma. Pelo contrário: ele poderia terminar sua vida pública da forma que começou, como prefeito. Não conheço homem público em Sergipe com tamanha capacidade de sonhar projetos que parecem impossíveis às vezes. Eu era seu secretário quando ele idealizou a Rodovia José Sarney, brincando com ele, eu disse: pra que isso? E hoje temos a necessidade de duplicação. Já imaginou os efeitos desta ponte (Ponte Construtor João Alves) daqui a um ou dois anos? João foi prefeito e reinventou Aracaju. Está na hora de Aracaju ser reinventado outra vez. C.S. - Em 2010, José Carlos Machado para o Senado Federal? J.C.M. - O futuro a Deus pertence, mas gostaria muito. Preciso viver uma nova experiência. Exerci três mandatos de deputado estadual, um mandato de vice-governador, estou indo para o segundo de deputado federal. Está na hora de a população de Sergipe e o meu partido me darem uma oportunidade de disputar uma eleição majoritária - para senador ou mesmo governador do estado. No exercício de qualquer mandato a gente só precisa ter uma coisa: espírito público - que suas ações têm que ser voltadas, sobretudo, para os mais pobres. Eu dizia isso e Lula repetiu - esta frase é minha, viu presidente Lula, eu já dizia isso há uns seis ou oito anos - 'rico não precisa de governo. Quem precisa são os mais pobres'.












